Hoje eu fui levar minha filha à apresentação de ballet. Um défilé, como foi anunciado (assim mesmo em francês) pela direção do liceu de dança. Liceu de dança, isso mesmo, coisa séria.

Quando criança eu também dançava. Quer dizer, eu era levada à aulas de dança. Ostensivamente, eu não tinha o menor jeito, e reservadamente, eu odiava. Mas para me deixar mais ajeitada e melhorar meus modos, minha mãe não poupava dinheiro ou esforços.

Começamos pegando dois ônibus para que ela deixasse metade do salário na Dalal Achcar. Em menos de um ano eu enjoei. No ano seguinte era um táxi e mais uma grana na Tatiana Leskova. Sem sucesso. Quando a Carlota Portela também não deu jeito, ela se rendeu à minha irremediável inaptidão e horrorosa preguiça.

Me sentindo culpada por não ser um vigésimo avos boa mãe como a minha, eu matriculei minha filha no balé. Sem muitos sacrifícios, é claro. Academia (não, não liceu!) pertinho de casa, preço razoável. Lêdo engano. Para minha decepção, o tal liceu é super caxias! Quando se aproxima a época do défilé (e são dois por ano, para o meu desespero) são feitos ensaios TODOS os sábados. E às 08:45. Um ultraje para uma mãe dorminhoca.

Mas não foi isso que me motivou a escrever hoje. Nem os balés da minha vida, nem a excelência da apresentação da minha filha. Com três anos, obviamente, ela ficou cerca de 30 segundos no palco com um bico que ia daqui a Minas Gerais. Nem preciso dizer que eu achei lindo.

Tenho que confessar, entretanto, que não foi ela quem me fascinou. Eu me encantei foi com a gordinha. Que gracinha! Não devia contar mais de oito anos. Bem redondinha e sorridente dançava perfeitamente, sem uma gota de complexo, na primeira fila. Arrasava.

Quando eu achei que já tinha “arrebentado” no balé clássico, ela voltava na próxima turma de sapateado. E foi assim em todas as modalidades! Do street dance ao jazz, passando pela dança contemporânea. A primeira coisa que me veio a cabeça foi que sua mãe não devia deixar meio salário do mês na academia como fazia a minha. Deve deixar inteirinho! Mas SUPER vale a pena!

Depois desse primeiro pensamento, vergonhosamente mesquinho, ainda lembrando da gordinha, eu teci algumas considerações:

1)    Dançar definitivamente não emagrece;

2)    Isso não tem a menor importância, porque a gordinha arrasou;

3)    Eu, aleatoriamente, acabei escolhendo bem a academia da minha filha!

Tenho certeza, e isso é uma memória doída na minha cabeça, que em Dalais, Tatianas e Carlotas (pelo menos no meu tempo) JAMAIS uma gordinha estaria na primeira fila. Não só gordinhas. Peitudinhas, bundudinhas, qualquer uma que não estivesse de acordo com o physique du role “padrão” ficaria no máximo lá pela terceira ou quarta! Viva a diversidade pregada no Liceu, academia pequena de bairro!

Sei lá, são só pensamentos… Mas uma coisa é certa: vou tentar me lembrar disso tudo e não me irritar no próximo sábado às 08:45!!!

  1. Valéria Martins says:

    Natalia, eu também fiz balé na Dalal, era chatérrimo! Era um sonho da minha mãe que não colou em mim. Mais tarde fiz dança Afro, acrobacia, yoga… Hoje faço musculação mesmo. Beijos!

  2. Agnes says:

    Eu era essa gordinha aí e ficava na segunda fila, claro. Mas emagreci e pude, finalmente ir para a primeira fila. Velhos tempos, velhos preconceitos. Viva a diversidade!

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