Era uma vez uma princesa. Bonita e mimada, como devem ser as princesas. Corria as escadas do castelo com a alegria inocente que se vê em bichos e crianças. Criança ela era. Vivia em meio a histórias, rocas, fadas-madrinhas, e bobos. E era feliz.

Até que um dia a princesa, crescendo, percebeu que havia algo de errado no reino da Dinamarca. Neste caso, no seu próprio reino. Havia dias em que cantava-se pouco e ouvia-se o vento. Em outros as fadas brigavam e ficavam de mal. Mesmo o bobo da corte era por vezes sem graça. “Não pode!,” gritou como princesa que era. “Isso é um reino de conto de fadas!”

A princesa reuniu o conselho de fadas-madrinhas. Muito sem jeito as três enrolaram para contar que as coisas na vida eram mesmo assim. Uns dias mais outros menos, nem sempre perfeitas. E que de um dia pro outro muitas vezes mudavam. “Mas como?”, perguntou a princesa. “Nos contos de fadas as coisas não mudam!”

Depois de ouvir respostas que não respondiam, foi perguntar ao rei e a rainha. O rei não gostava de questões filosóficas. Gostava de governar e com a corte assistir quadribol. Para ele estava sempre tudo bom. A rainha andava cansada. Disse que o rei não cooperava. Trabalhava muito e só queria saber da nobreza. Não namoravam nem discutiam a relação. A rainha cozia, serzia e fazia mesuras. Queria conhecer o mundo também!.

Inconformada, a Princesa se revoltou. “Se nos reinos de fadas, tudo é sempre belo e bom, no meu também há de ser”, pensou. Quis sair pelo mundo, conhecer outros reinos, para tornar o seu eternamente feliz. E assim foi. Na calada da noite, reuniu suas vestes e pulou a janela. De sua cama dourada para o mundo. Um mundo que fosse mais perfeito que o seu.

Parou primeiro no reino azul. O reino azul, percebeu, era meio diferente. Mas não menos belo. Jovens elegantes faziam mesuras e declamavam poemas na rua. Tudo simetricamente arrumado. Extasiada com tanta beleza, a princesa pensou: “Eis aqui um reino feliz”.

E não é que era? O Rei Celeste e o Rei Piscina, reinavam juntos em harmonia. Um reino com dois reis, e nada de rainha! Mas não é que podia? A princesa embevecida, pediu para ficar. Morar naquele lugar onde tudo era belo e todos felizes. Os Reis não deixaram. O Rei piscina, porque o Rei Celeste queria. Ou foi o contrário? Não sabia, mas foi como começou a briga. A princesa viu que, apesar da beleza, o reino azul também tinha questões. Talvez a rainha tivesse razão e discutir problemas fosse bom, pensou enquanto partia.

Ainda confusa, chegou ao próximo reino, o vermelho. Lá morava sua prima, a Duquesa. Morava sozinha com a mãe. A rainha tinha a sua própria carruagem e a dirigia. Mandava e desmandava, de um lado pro outro de cima pra baixo. Parece que o rei tinha ido buscar o seu eu interior num monte bem alto. Ou talvez tivesse ficado com medo da rainha. Um reino sem rei, ora essa! Mas nao é que podia? De dia, a rainha reunia seus homens mas decidia sozinha. E de noite, quando ninguém via, abraçava a pequena duquesa, e lhe contava as histórias mais lindas.

Amanheceu e a princesa partiu para o terceiro reino, o amarelo. Mas, epa! Olha lá que nem mais reino ali era. O rei, a rainha, o príncipe e a princesa abriram seu palácio para os aldeões. As mulheres serziam e o rei decidia. Sempre juntos  com o povo. As discussões do dia se alongavam à noite em música e dança. Todos juntos em volta da fogueira do que restara da madeira nobre. Que alegria! A princesa dançou e cantou até a última estrela. Um reino sem palácio? Isso também podia….

Mas logo a princesa ficou com saudades. De seu palácio que podia ser alegre e triste, cheio e sozinho. De seu pai e de sua mãe que às vezes brigavam e às vezes sorriam. De seu mundo de mais e de menos. Voltou e os pais a abraçaram num abraço doído. “Por onde você esteve?” perguntaram. E a princesa contou. Contou de tudo que viu: do reino azul com dois reis, do reino vermelho sem rei e do amarelo sem reino. Os dois mal ouviram de contentes que estavam em tê-la ali e inteira.

Seu reino continuou como era, uns dias felizes e outros nem tanto. Mas, enfim, era seu. O rei às vezes trabalhava demais. A rainha era mal humorada, e o o bobo da corte às vezes sem graça. E às vezes tudo era bom demais.

A princesa cresceu e apareceu. Apaixonada pela diversidade que era, ficou secretamente decepcionada ao conhecer um príncipe encantado, casar e ser feliz para sempre.

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