È una canzione di Primavera, è il piu bel fiore

                                                                                                        sbocciato al sole ch’io dono a te

(Innocenzi/Martelli)

Yasmim levantou-se do vaso ainda zonza. Ressaca da noite anterior, pensou esperançosa. Sacudiu a fitinha que ainda pingava, impaciente. Já eram cinco dias de atraso. Releu as instruções com cuidado. Eram muito claras: “Se após cinco minutos duas tiras cor de rosa aparecerem, o exame será positivo.”

“INFERNO!”, o grito ecoou a léguas do banheiro, quase acordando a companheira de quarto que dormia o justo sono dos bêbados. “Como isso pôde me acontecer?”

Um animado flashback passou pela sua cabeça. Lembrou das aulas de biologia, das abelhas e das flores e pensou que deveria ter deixado toda essa atividade com os insetos. Ou ter ficado com o Murilo, o que era quase a mesma coisa.

Murilo era o seu namorado até dois meses atrás. Confiável, responsável, emprego fixo com carteira assinada. Transavam a cada quinze dias – o que para eles era mais do que suficiente – jantavam, iam ao cinema e jogavam buraco com os seus pais. O problema: ela não achava Murilo “descolado” o suficiente. Muito pelo contrário, ele era bastante colado. No trabalho, nos livros, no computador, e sobretudo nela. Especialmente nela.

Tudo ia bem, até a Fashion Week. Yasmim, segunda ajudante da assistente da estilista de moda praia, besuntava cuidadosamente o bumbum da top famosa. “Tem que estar brilhante”, disse sua chefe. Num estalo reparou no DJ que fazia o som. Ele reparou nela. Pronto: por água abaixo o namoro estável, a transa quinzenal e a carteira assinada. Dois meses depois, sementinha na barriga, Yasmim suspirou:

“Bem feito! Vai querer transar todo dia? Agora aguenta!”

Analisou suas opções, e, com a cabeça já doendo, pensou em ligar para alguém. A mãe era a opção mais óbvia. Celular fora de área. O que fazer?

I

Resolveu insistir. A essa hora ela já deveria estar em casa.

“Você tá maluca?”, gritou a mãe frenética, “Um aborto aos 33?? Você acredita sinceramente que a natureza vai te dar outra chance?”

Se espantou com a reação dela, uma mulher tão pouco maternal que se coçava à simples menção da palavra avó. Por isso mesmo devia ter razão.

Fez a sua opção. Abriu o jogo pro DJ, Tom, que emocionado prometeu abraçar plenamente a paternidade e, de quebra, largar a indústria da música por algo que rendesse mais frutos. Passado o susto, Yasmim desabrochou. Tomou coragem e pediu na empresa a promoção que há tempos merecia. Meses depois já era a assistente principal. Noites em claro criando biquinis, maiôs e cangas coloridos. Nas horas vagas, muitas roupinhas amarelas. Fértil, sentia a criatividade jorrar. Produziu tanto, que o negócio floresceu. Passou a vender para as amigas, amigas das amigas, e outras mães modernas. Aos sete meses, criou o seu próprio site. Expulsou a companheira de quarto, não era hippie pra criar filho em comunidade. Com os bicos de Tom, o seu aumento e as vendas no site, daria para alugar um apê. Pequeno, mas deles: um ninho feliz. Na última ultra, estragando a surpresa, Tom viu o raminho que brotava entre as pequenas pernas. Era um menino.

II

Resolveu desistir. A esta hora a mãe já deveria estar em casa. Mas quem é que vai saber? Ligou para a segunda pessoa em que mais confiava: o amigo gay.

“Você tá maluca?”, gritou o amigo, frenético, “Vai largar tudo aos 33? Você acredita sinceramente que o mercado vai te dar outra chance?”

Se espantou com a reação dele, um budista que chorava em enterro de formiga e lutava contra a castração das cacatuas. Por isso mesmo devia ter razão.

Fez a sua opção. Não contou nada para a mãe ou para Tom. Foi escondida com o amigo na clínica de aborto. Suja, escura, triste. Passou dias em casa, consumida pela culpa. Passado o luto, Yasmim desabrochou. Largou o namorado e o emprego, não queria passar a vida desenhando biquinis, maiôs e cangas coloridos. Juntou as amigas, montou barraca em feirinhas, ralou muito, muito mesmo. Até que um dia caiu nas graças da figurinista global. Das novelas pro cinema foi um pulo.

No aniversário de 40 anos, um amigo a apresentou a um cineasta que buscava figurinos para uma produção de época. Se apaixonou. Moravam juntos há um ano e resolveram que teriam um bebê. Já era tarde, e a natureza não lhe daria uma segunda chance. Mas para isso havia a ciência. Na terceira FIV, o resultado positivo. Era uma menina.

EPÍLOGO

Em 23 de setembro, nasceu a criança. O primeiro dia da primavera. Com a cabeça enevoada pela peridural, Yasmim pensava nas possibilidades que a vida lhe tinha apresentado. Teria tomado a melhor decisão? Olhando a criança em seu colo, teve certeza que sim. Contou seus dedinhos com cuidado, enquanto agradecia as flores recebidas. Tantas e tão cheirosas. Aninhou o bebê ao seio. Olhou para baixo e reconheceu-se no pequeno broto rosado envolto em seus braços. Pleno, vivo, feliz.

 

 

Le vent fera craquer les branches,

la brume viendra dans sa robe blanch

Il y aura de feuilles partout

couchées sur des cailloux

Octobre tiendra sa revanche”

(Francis Cabrel)

O vento soprou mais forte. Ela foi à janela e a fechou pouco antes do começo da chuva. O relógio marcava cinco horas. Deu início ao ritual. Bule de chá, sua taça, a caneca dele. Em ambas três colheres de açúcar. Sentou no sofá, manta ao joelho. Ele aninhou-se aos seus pés. Mal haviam se aquecido, ele pediu:

“Conta a história, Helena! A do outono!”

“Mas de novo?”

Ela suspirou. Deixou o livro que havia começado a reler. Marcou a página com a folha seca dourada. Ele insistiu.

“Aquela que começa com: Era a primeira tarde de outono.”

Ela respirou fundo como num esforço de lembrar os detalhes.

“Era a primeira tarde de outono. Vinte cinco anos atrás. O outono em que Marina e Irineu se conheceram. Marina, normalista, sonhava em ensinar as letras aos pobres seguindo Paulo Freire. Irineu, bem, ele ainda não sabia que caminho seguir. Provavelmente o comércio do pai. Como fez.”

Foi interrompida pelo barulho suave da chuva sobre a telha.

“Aí ela recebeu o biscoito?”– ele perguntou ansioso.

Ela sorriu com o incentivo. Prosseguiu:

“Naquela tarde, como fazia aos domingos, Marina acompanhou os pais ao restaurante chinês. Era a tradição. Tomavam chá, pediam a conta e liam em voz alta a sorte nos biscoitos. Na sua vez, Marina leu: “E antes do outono acabar, o amor eterno irá encontrar”. Ela riu. Nunca acreditara em biscoitos chineses e muito menos no amor. Passou um tempo e esqueceu. Até que um dia, ao buscar a correspondência na porta, viu que o vento trouxera por engano uma carta. Era endereçada ao vizinho novo, para ela ainda um desconhecido. Desinteressada, deixou-a em cima da mesa. No dia seguinte porém, viu o rapaz à sombra de sua árvore. A velha laranjeira. Ele lia “Memórias Póstumas de Bráz Cubas”. Seu Machado predileto. Enfrentou a timidez e, carta em punho, foi ao seu encontro. Ao perguntar se a correspondência lhe pertencia, ele acenou com a cabeça. Satisfeita, ela mudou o assunto e indagou sobre o livro. Ele, ao contrário de muitos, tinha opinião. Algumas até diferentes das suas. Como se visse outros Machados no seu. A tarde caiu e ela tinha que entrar. No dia seguinte, ao sair para o Instituto, mais uma carta. Mesmo destinatário trocado. Estranhou o vento esquisito de direção viciada. Saindo da escola se dirigiu ao vizinho que, com “Dom Casmurro” no braço, ajudava o pai na mercearia. Desta vez o frio não a impediu de ficar mais um pouco. Ajudou-o a fechar a loja e ele a acompanhou até a sua casa. Quando no terceiro dia recebeu outra carta errada, desconfiou. Comentou com a mãe a coincidência, não surpresa em ouvir que o carteiro ainda nem mesmo havia passado. Resolveu confrontar o vizinho. Irineu riu. Abriu o envelope e mostrou o que vinha enviando a si mesmo há três dias. Uma folha catada do chão. Desde que se mudara buscava um meio de conhecê-la. E ela, sempre inalcançável, imersa em seus livros. Apelou para o vento do outono. E Machado de Assis. Ela achou graça. Coincidência ou não, achou o amor no último dia da estação. Desde então não mais se separaram. Casaram e tiveram uma filha a quem, homenageando o Mestre, chamaram Helena.”

Marina sentiu a voz embargar. Tanto tempo depois, a história ainda a tocava. Olhou para Irineu que, aos seus pés, sorria. Mas não por muito tempo. Mais alguns minutos e voltou a fitar o vazio.

Ela engoliu o chá enquanto cobria o marido com a manta. Não era a primeira vez que contava a história aquele dia. Nem seria a última. Mudava apenas o narrador. Para ele, às vezes era Helena, às vezes sua mãe e, cada vez mais raro, ela própria. E ela já não mais se importava. Ao contrário, invejava o marido que, em sua confusão, vivia naquele outono eterno. Como o amor do biscoito chinês. Ela não. Lúcida, passava os dias a procurar nele um sinal de lembrança. Um esparso clarão na neblina.

Cinco e quarenta e cinco da tarde. Com o barulho da chuva ele adormecera. Ela se levantou e foi à janela baixar a cortina. Chegou bem a tempo de admirar o ocaso. Por um instante olhou a sua árvore e pensou reconhecer-se no fruto, já prestes a cair. Seco, murcho, amargo.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Little boxes on the hillside,

Little boxes made of ticky-tacky.

Little boxes, little boxes,

Little boxes, all the same.

(Malvina Reynolds)

“Otávio,

Talvez você estranhe a minha ausência esta manhã. Não, eu não estou no spa ou na academia. É Otávio, eu te deixei. Por que? Difícil explicar, muito a dizer. E eu sei que você não é de muitas palavras. Você é prático, seco. Como o vento aqui no Colorado. Cortante a ponto de ferir a pele se nos pega desprevenido. E você sempre me pega. Por que agora? Não sei. Talvez porque seja inverno e eu não aguente mais tanto frio.

“Faz frio em Paris”, lembra? Foi a frase que você disse quando nos conhecemos. Les deux Magots, o café que Sartre frequentava, como eu te contei. Você me olhou impressionado. E eu, brasileira, estudante de Beaux Arts, bolsista, completamente só neste mundo, fiquei orgulhosa de  impressionar alguém como você.

Era inverno como agora. Você esperou eu terminar o turno, me ajudou a colocar o casaco, ajeitou o cachecol e cobriu minha cabeça com cuidado. Depois de meses estrangeira, me senti em casa. Até então, eu fugia da saudade mergulhada em estudo e trabalho. Depois, cada minuto meu era dedicado à pintura e a você. Dias felizes aqueles.

Foi quando você me trouxe de volta que as coisas esfriaram, Otávio? Irônico, já que era o verão mais quente dos últimos anos. Lembro de aterrissar no seu apartamento do Leblon. O seu Brasil para mim era outro país. Vista para o mar, suítes, empregadas. O apartamento branco hospitalar refletia o sol da manhã tão valorizado pelos corretores. E eu, apaixonada por cores e sombras, me incomodava com aquela assepsia. Tímida, propus que pendurássemos um dos meus quadros na parede. Uma natureza morta bem mais viva do que toda a sua mobília do Leblon. Mas não combinava.

Apesar das promessas, nós nunca mais voltamos à Paris. Poucas férias, Aspen no inverno, St Barth no verão. Com o seu chefe, o chefe do seu chefe, e outros chefes na cadeia alimentar. E as esposas. As bonecas, como brincávamos quando os dias ainda eram quentes. Nunca te contei, mas elas nunca foram minhas amigas. Jamais. Meus amigos são poucos, alguns professores da escola. Aqueles que, ao contrário de mim, precisam trabalhar. Não sei se você percebeu, mas eu nunca os convidei para a “nossa” casa, Otávio. Meus amigos vivem no nosso país mas em outro planeta. Eles fingem que não sabem que eu moro na praia do Leblon ou que o LV da minha bolsa é diferente do que vende na Uruguaiana.  E eu finjo saber o que é comprar parcelado e qual o preço da passagem de ônibus. Acho que eu não os convido por vergonha, Otávio. Vergonha do branco da decoração que não diz nada sobre a gente. E inveja. Inveja dos planos que eles fazem, juntos. Você também faz planos: para as próximas férias, para a próxima temporada de pesca. Mas eles não. Eles se comprometem, se endividam, fazem empréstimos juntos na Caixa Econômica Federal para comprar a casa própria em 30 anos. Com juros. Para nós, já está tudo sempre pronto, planejado, comprado. Sem compromisso nem risco. Sem envolvimento.

Sabe o que é pior? Na verdade, eu não tenho do que me queixar. Se houve outras mulheres, não vi. Você nunca chegou bêbado, xingou, muito menos me agrediu. Mas sabe, Otávio, talvez tivesse sido melhor. Porque eu sentiria que você ao menos por um instante havia prestado atenção em mim. Você distribui fotos minhas na carteira, na cabeceira e no escritório, mas nunca me vê. Nunca notou que eu luto para perder os cinco quilos da gravidez abortada, e que em meus pés já apontam joanetes. Você vê o que interessa, o que aparece. Mas se você for além do olhar e um dia resolver me perceber, não verá mais Dorian Gray, e sim o retrato escondido atrás da cortina. E é feio, Otávio, muito feio.

Você sabe que há anos viajamos para Aspen e eu não gosto de esquiar? O vento frio que refresca o rosto na descida traz uma sensação de liberdade que me incomoda. E o corpo, ocupado demais em burlar a dor, liberta a mente para pensar. Pensar é perigoso. E você? Será que você gosta de esquiar? Ou será que é mais um daqueles teus Tem Que. Tem que gostar de esqui, tem que gostar de jazz, tem que gostar de vinho. Não só gostar, tem que gostar e saber origem e safra. Eu gosto de cerveja, Otávio. E de caipirinha, bem gelada. Caiprinha não combina com o Colorado. Decididamente não.

Eu tentei, Otávio, eu tentei. Eu tentei entrar no jogo, fazer parte do seu mundo. Gostar de esqui, de jazz e de vinhos. Eu fui a todos os psiquiatras que me indicaram. Mas os terapeutas, mesmo os mais caros, nunca me fizeram entender porque eu me sinto mal no meio dessa gente tão feliz. E porque eu sinto tanto frio. Para me expulsar do branco que vivo, me deram remédios coloridos. Rosa para dormir, azul para acordar, verde para sorrir e amarelo para calar. Calar o espírito que teima em fazer perguntas tolas. Afinal, eu tenho tudo. Eu tentei, Otávio. Tentei brincar de casinha, mesmo engravidar, e até nisso não tive sucesso. Então acabou. A Barbie vai embora. Deixar a casa da Barbie, o carro da Barbie, e o Ken. Especialmente o Ken. Vou partir, ou melhor, vou ser, como diz a escritora que você cita mas não leu. E quando eu deixar o hotel, Otávio, esse hotel de grife igual a todos os outros, eu não vou voltar. Nem mesmo olhar para trás. E mesmo que, ao partir essa manhã, o termômetro marque os 20 graus negativos previstos, eu vou me sentir bem. Pela primeira vez em muito tempo, aquecida.”

 

Dobrou a carta amarela e já com as bordas puídas rapidamente ao ver que ele  voltava da pista com o grupo. Esgarçou seu melhor sorriso enquanto pegava na bolsa o primeiro comprimido do dia.

“Amanhã, amanhã…”, repetiu como um mantra o pensamento que a assaltava todos os dias há anos. A neve recomeçou a cair. Por um instante olhou para o lado e pensou reconhecer-se nas feições do boneco de neve montado há dias. Imóvel, gelado, só.

 

A Vila do Cruzeiro acordou em chamas. O bochicho corria.

-       Sabe o Erasmo Almeida?

-       O evangélico?

-       O próprio! Estão dizendo que largou a mulher.

-       Mas como? Família feliz, cristã, tementes a Deus!

-       Pois é. E você nem sabe….

Os Almeida eram moradores antigos na vila. Ocupavam três casas geminadas: na primeira, Dona Aurora e seu Gervásio – os pais; na segunda, Maria Amélia e Erasmo, e na terceira, Maria Rita – a filha solteira.  Família evangélica praticante e unida

Seu Gervásio, funcionário público, casara com Dona Aurora há trinta anos. Discreto, depois de casado não foi mais de aventuras. Antes porém, dedicava-se com fervor às atividades do baixo meretrício. Após o casamento, a paixão que dedicava às prostitutas foi desviado à religião. Abraçou a igreja envangélica como costumava abraçar as damas da noite, com vigor e afinco. Virou crente daqueles de mandar pagãos arder no inferno e pregar a palavra divina a quem quisesse ou não ouvir.

Dona Aurora foi quem o tirou da antiga vida. Na verdade, seu pai. Vinham de família do interior, de tradição religiosa. O sogro, pouco antes da cerimônia, convenceu Gervásio a largar a putaria. Era isso ou a perseguição até à morte. E assim foi feito. Dedicaram-se, Dona Aurora e o marido, à criação das duas meninas, Maria Amélia e Maria Rita, dentro da fé cristã e com esmero.

 

A ESPOSA

Maria Amélia sempre fora a mais bonita. Muito assediada, desde nova era a preocupação do pai, que escorraçava qualquer um que lhe exaltasse os encantos. Depois de dúzias de pretendendes afastados, conheceu no coral da igreja o Erasmo.

Trabalhava na repartição com o pai. Apesar dos encantos, sabia manter o respeito com os rapazes que a cercavam. E se não soubesse, tinha o pai logo ao lado para lembrá-la.

O brilho da mulher contrastava com a discrição do marido. No trabalho como na Vila, mal se sabia o nome do santo. Era conhecido como: aquele casado com Maria Amélia. No pensamento dos homens: o sortudo.

Erasmo era o genro perfeito: contador, evangélico e calado de quase não se ouvir a voz. Explicada então a surpresa de Maria Amélia ao ouvir do marido a notícia:

-       Quero me separar.

-       O que?

-       Você ouviu. Quero me separar.

-        Você tem outra?

-       Não, mas eu descobri que quero é a Maria Rita.

-       Maria Rita? Você tem certeza?

-       É ela a mulher certa pra mim.

Maria Amélia, acostumada ao silêncio do marido, nunca imaginaria escutar dele notícia que a deixasse tão surpresa.

Como namorado, Erasmo já não era assim tão quieto. Se encontravam todos os sábados na casa dos pais. Seu Gevásio e Dona Aurora sempre ao lado. Assistiam filmes, liam a bíblia, todos juntos e felizes. Para a alegria do futuro sogro, Erasmo não parecia se incomodar com a vigilância contínua.

Depois de casados, Maria Amélia se esforçou por criar momentos dessa descompromissada alegria. Sem sucesso algum. Erasmo estava lá, mas sempre no seu canto e em silêncio.

Na cama, depois de desvirginar-lhe nas núpcias, cumpria apenas obrigações conjugais. No início toda semana, depois dos filhos nascidos, uma vez ao mês. Sempre no dia do pagamento. Rápido e silencioso como tudo mais que fazia.

Maria Amélia só escutava sua voz aos domingos. Em dia de culto, Erasmo se acendia. Partia o cabelo de lado, botava o melhor terno e se perfumava. Tudo isso, ao que parecia, para a glória do Senhor.

Iam os cinco juntos, Dona Aurora, Gervásio, Maria Amélia, Maria Rita e Erasmo. Família feliz e cristã. Liam os salmos, oravam, cantarolavam os hinos.  Em meio aos cânticos, Maria Amélia via o marido sorrir. Agora entendia o porquê. Decerto o safado já flertava com a irmã.

 

MARIA RITA

Muito parecida com a irmã, porém sem os mesmos encantos, Maria Rita era a pia. Ia diariamente à igreja com as amigas do coro. Às vezes pensara em namorar, mas era sempre das duas uma: ou os pretendentes não vinham, visto que não tinha os encantos da irmã, ou os que vinham eram, ela desconfiava, apenas pelos encantos da Amélia.

Fato é que Maria Rita habitou-se a viver só. E nunca desconfiou do interesse do Erasmo. Até que num belo dia ele chegou:

-       Não gosto mais da sua irmã. Quero ficar com você.

Maria Rita se surpreendeu por ouvir a voz do cunhado, geralmente guardada para a pregação. Só depois se atentou ao que ele estava dizendo:

-       Nem sei o que dizer.

Não soube o que dizer, mas aceitou com discreta alegria a entrada do marido da irmã em sua casa. Menos por amor, mais por vingança velada dos anos vividos à sombra da Amélia.

Da forma silenciosa como saiu da vida de Maria Amélia, Erasmo entrou na de Maria Rita. Dias depos a desvirginou como anos antes havia feito à irmã.

Querendo superar a irmã abandonada, Maria Rita se esforçou. Tentou de tudo na cama, das dicas das amigas casadas, às reportagens das revistas. No fim, tudo o que recebia de Erasmo era o quieto cumprimento da obrigação mensal. Sempre no dia do pagamento.

Passado um tempo da briga, já tinham, ela e Maria Amélia concluído que a única diferença entre as duas, na visão do Erasmo, era a dedicação à igreja. Maria Rita, mais devota, tinha conquistado sua preferência. E assim fez-se a paz.

De tão discreta que foi, a mudança de Erasmo para a outra casa geminada causou pouca estranheza. Uma semana depois, já não se falava mais nisso. Era tudo tão casto e puro que chegava a ser desinteressante.

A família Almeida, unida, feliz e cristã, voltou a frequentar religiosamente o culto dos domingos.

 

O MORTO

Daí a um ano, o choque. Dona Aurora acordou junto ao corpo de Seu Gervásio rijo. Morrera durante à noite, ataque cardíaco fulminante.

A viúva arrasada, apelou à família. Se uniram mais do que nunca, filhas, netos e o genro. O Erasmo parecia outro. Ativo, tomou todas as providências do enterro. Encomendou as rosas, vestiu o defunto, pagou as despesas. Até mesmo o discurso de despedida no culto foi dele. As mulheres o olhavam incrédulas.

-       Isso é que é consideração pelo sogro.

-       Duas vezes sogro – diziam os maldosos.

A morte do Gevásio transformou a família. Algumas semanas depois, Maria Amélia notou os encantos do Nicanor da repartição, que há anos lhe consagrava uma mais ou menos velada admiração. A irmã Maria Rita, por sua vez, após uma vida de coral da igreja se rendeu aos talentos ocultos da organista Adelaide. Moram juntas até hoje.

 

-        Mas e o Erasmo Almeida?

-        Então. Essa é a parte que você não sabe.

 

A morte do sogro abriu os olhos do Erasmo. Ainda no velório, agarrou Dona Aurora, a viúva, e pegou-a por trás. Os gritos dos dois afugentaram os presentes.

Mudou novamente de casa geminada, dessa vez sem discrição alguma. Descobriu porque mudara de mulher mas nunca de sogra. Encontrou na Aurora o que há tempos buscava nas filhas. Seu quarto antes tão quieto, hoje é tomado de urros e grunhidos. Com ou sem pagamento.

Todos felizes novamente. Somente os vizinhos da Vila do Cruzeiro se ressentem das noites silenciosas de outrora.

Fim de turno, 18ª DP.  Os detetives fingiram não prestar atenção na loura que conversava com o escrevente do outro lado do vidro. Entrara chorando há uns 10 minutos. 1.70, pernas longas, impossível não notar.

O escrevente abriu a porta. Apontou para a loura.

“A irmã da moça sumiu. Dois dias sem dar notícias”.

Miguez respirou fundo. Odiava investigar desaparecidos. Dias de trabalho pra depois descobrir que a moça fugiu com o amante. Desperdício de tempo e dinheiro do contribuinte.

Conhecendo o Inspetor, ele insistiu:

“Chefe, esse parece sério. A desaparecida veio aqui semana passada. Espancada pelo namorado, lembra?”

Claro que lembrava. Bonita como a irmã. Chegou quase desfigurada de porrada. O cara pegou com o amante, o melhor amigo. Meteu-lhe a mão. Mereceu, a vaca.

Olhou para o parceiro, Sunny.

“Lembra, cara? Você registrou.”

Sunny suspirou:

“Registrei, o cacete! A vaca da mulher chega aqui desfigurada. Chora, grita, faz corpo de delito e na hora H não dá queixa, não quer prender o sujeito. Agora taí, sumiu!”

Os dois se olharam. Anos de polícia e tudo igual. Melhor escutar a moça. Não era o primeiro sumiço na área. Duas mulheres no último mês. E ainda por cima a irmã era gostosa.

 

X

 

“Minha irmã não fugiu. O cara é louco. Espancou e agora sumiu com a coitada. Vocês têm que fazer alguma coisa!” – grita Michelle desesperada.

Michelle era a irmã. Nome de gostosa. Como Miguez não disfarçava a falta de interesse no caso, Sunny assumiu.

“Michelle …. é Michelle mesmo, né?”

A loura assentiu.

“O negócio é o seguinte. Nove entre dez desaparecimentos são na verdade fugas. Desaparecimentos vo-lun-tá-rios, entende?” – Enfatizou cada sílaba.

Continuou:

“Te falo, venho de família de polícia, pai, avô, e é comprovado, estatística. Os números nunca mentem. Matemática, ciência exata. Mas como nesse caso teve o lance da surra e tal, a gente vai investigar.”

História comum. Michelle e Barbara, a irmã sumida, tinham vindo do interior há dois anos. Ricas, filhas de fazendeiro, berço de ouro. Alugaram apartamento, estudavam, iam a festas e tal. Até a irmã conhecer o tal cara, Bob. Introvertido, não gostava de sair, sempre no computador ou no pôquer. A irmã bem que tentou acompanhar, largar as noitadas, mas sucumbiu. Depois de dois meses pegou o melhor amigo do cara. E o nerd meteu-lhe a porrada.

“Bem feito”, murmurou Miguez entredentes.

Sunny olhou feio pro parceiro. Essa Barbara parecia vadia. Mas Michelle não. Tinha algo diferente na moça. Preocupada com a família. Coisa rara.

“Vamos falar com o meliante”- decidiu.

 

XX

Michelle quis acompanhá-lo até a casa de Bob. Silêncio na viatura. Pra evitar conflitos, Sunny achou melhor não levar o parceiro.

“Desculpe pelo Miguez”, falou, “ele teve uns problemas.”

Michelle olhou curiosa.

“Casou novo, sem experiência de vida. Levou um chifre já na lua de mel. Coisas da vida, mas o cara ainda não reage bem a esse assunto.”

“E você é casado?”

Sunny gostou da franqueza.

“Não. Acho que é trauma também. Meu pai era polícia, trabalhava muito. Chegou em casa uma noite e encontrou minha mãe com o gerente do banco. Os dois sumiram. Pouco tempo depois meu pai se matou.”

Michelle se arrependeu de ter perguntado. Diferente esse Inspetor. Parecia sensível.

“Mas isso faz tempo?”

“Uns vinte anos, eu era garoto.”

“E nunca mais viu sua mãe?”

“Eu não procurei, ela não procurou. Melhor deixar como está.”

Novamente o silêncio.

Chegaram à casa. O apartamento fedia já do lado de fora. Sunny não entendia moças finas que se envolviam com esse tipo de gente.

Bob abriu a porta de cuecas. Tinha uma gostosa com ele. Deviam estar trepando.

“Inacreditável”- pensou Sunny.

Bob, jeito de riquinho, mimado. Nerd que se achava descolado. Repetiu a história conhecida omitindo, é claro, o fato de ter desfigurado a menina. Sunny sentiu que ele tinha mais a dizer, e mandou Michelle pro carro.

“Desembucha!

“Escuta, polícia…”

“Inspetor Sunny pra você.”

“Que seja. Eu dei uma surra na Barbara, tá certo. Ela era uma vaca. Mas como você pode ver eu já superei. Eu nem gostava muito dela. Fiquei puto de perder o amigo. Depois da surra eu não vi mais. Já tô namorando outras. E da parte dela também a fila andou.”

“Quem é o novo cara?”

“Cara?” – ele riu, o nojento, – “Caras!!”

Sunny incrédulo.

“Além de pegar meu amigo, ela tava pegando geral. Descobri que fazia programa. Os pais são ricos, mas as contas são altas. Ela só gosta de Louis Vuitton, de coisa boa. Vi a foto no catálogo daquela boite de escorts alto nível, a Lux. Se você quiser achar a Barbara, melhor tentar por ali.”

XXX

Foi uma tarefa hercúlea, mas consegui. Meses de conversas acaloradas, pregações, prós e contras exaustivamente debatidos. Como último recurso: choros e chantagens. Ao final, todo o sofrimento foi compensado quando vi o meu desejo de inserir um felino no seio de nossa, até então exclusivamente canina família, ser atendido.

Pode parecer bobagem, mas quem é do meio sabe que, amantes de cães e de gatos (no bom sentido, é claro), não se misturam. Quanto mais em um mesmo ninho. Tais grupos, mais radicais que muitos dos xiitas, são incapazes de abrir mão de suas convicções, defendendo fervorosamente a cada oportunidade os atributos de de seu mascote favorito. Mais mérito então teve a minha vitória, por puro cansaço, sobre pai, mãe e irmãos exclusivamente cinófilos.

Meus pais e irmãos se identificavam com cães: meigos, festivos e calorosos. Eu, por minha vez, achava que a altivez do gato me caía bem. Os felinos me lembravam o primeiro filme que tinha visto: “Um dia, um gato”, em que este animal passava por entre os habitantes de um vilarejo, colorindo-os e assim denunciando os traços mais tenebrosos de seu caráter.

Decidida a contenta, parti em busca do felino que preencheria os meus ideais “gatísticos”, ou seja, que me amasse como um cão e que eu amasse feito gato.

Dá-lhe a procurar em gatis, asilos, lares e criadouros, um animal dotado de qualidades assim tão raras.

Minha busca teve fim, num domingo, ao ler os anúncios pessoais. Neles, uma senhora anunciava a graça de sua ninhada de siameses, de quem por motivos financeiros não poderia cuidar.

Lá fui eu conhecer as elogiadas criaturas. Dentre os dez filhote, absolutamente idênticos, nove roçavam a minha perna, miando, carentes. Eu, como típica  representante do sexo feminino, tombei justamente por aquele que nenhuma bola me deu. De longe, altivo, me olhava na mais profunda indiferença. Me apaixonei.

Gato no cesto, cheguei em casa com a dura tarefa de batizá-lo. Acostumada a viver entre Bills e Rex, um único nome veio –me à mente: Mickey.

“Mickey?”, perguntavam minhãs irmãs, pais, primos e mesmo os curiosos que me abordavam durante a caminhada matinal com meu encoleirado gato. “Mickey é nome de rato”, me diziam os óbvios, “Ele vai ter problemas de identidade!”, preconizavam os gaiatos.

Mas eu sacudia os ombros com desdém felino, afinal era meu o animal, e eu, segura como nunca aos oito anos de idade, poderia chamá-lo como bem entendesse.

Mickey superou todas as minhas expectativas. “Marrento” como só, assumiu a liderança da cachorrada. Bastava um sibilo seu, para Rex, Bills e Teds saírem correndo, abandonando seus pratos de comida apenas para o seu deleite. E eu contemplava cheia de mim as proezas de minha “cria de rabo.

Orgulhoso, Mickey não dava a mínima para as minhas entradas e saídas de casa. Mas, sem festejos ou alarde, ao me ver deitar com um livro ou ligar a TV, se aninhava “non chalant” nos meus braços. Rodava, cavava e rodava, de forma a achar a posição mais confortável. Para ele, é claro.

Fingido, se recusava a comer whiskas, triskas e outros petiscos felinos. Olhava o prato como se alérgico fosse. Quando tinha fome, arregalava os olhos e roçava em quem quer que fosse, homem ou bicho que estivesse mastigando algo que parecesse melhor. Quem visse diria: “Pobre animal, está faminto!” Mal sabiam que de grão em grão, apelo em apelo, seu papo vivia cheio.

Mickey preenchia os meus dias, com seus ronrons, gemidos, e gaiatarias contadas com graça pelos meus antes cinófilos familiares.

E assim fui crescendo.

Com 10 anos, tínhamos ainda almas de filhotes. Brincávamos, Mickey e eu, de pega-pega e pique-esconde. E eu juro, juro por Deus que ele buscava as bolas que eu lhe jogava, e com maestria. Provavelmente como deboche aos seus colegas caninos.

Aos 20, aninhado quentinho às minhas pernas, me acompanhava tanto nos meus estudos da faculdade quanto nas conversas ao telefone com amigos e amores.

Aos quase trinta conheci um alérgico, e veio a difícil decisão. No final, entre o amor do gato e do homem, optei pelo último, sem duvidar um segundo da sinceridade de ambos.

Casei e mudei, de casa e de cidade, deixando meu gato a cargo de minha agora apaixonada família. A vida sem Mickey para eles seria surpreendentemente tão vazia quanto para mim.

Aos que julgam que gatos se apegam apenas aos lares, eu digo que Mickey sofreu a minha ausência. A cada visita me esnobava. Fingia, através daqueles olhos já marejados pela catarata, que nem estava me vendo. Minutos depois lá estava ele, aninhado nos meus braços saudosos.

Um dia, o telefonema de minha mãe: “Filha, estou indo te visitar.” Estranhei por um minuto, o ímpeto daquela senhorinha, em enfrentar os 150 km das curvas de Santos por um suspiro de saudade.

Nem suspeitei da verdade. Já na rodoviária, pegou minha mão e disse: “É o Mickey”. Meu coração se apertou, os olhos marejados. “Ele descansou”, continuou. Acho que nunca agradeci o suficiente o apreço de ter sido informada pessoalmente.

Só sei que nunca mais quis ter bichos. O tempo passou e a saudade foi sendo aos poucos cimentada pelo correr normal da vida.

Da dor da ausência restou uma cicatriz, que arde toda vez que minha filha, aninhada em meus braços como já fazia o meu gato, olha suas fotos e pergunta inocente: “Será que quando formos à Disney vamos ver o seu Mickey?”

A parte de mim que ainda é criança, sorri e espera que sim.

 

Era chegada aquela época do ano a que todas as crianças anseiam: as férias escolares. Dizer adeus aos coleguinhas e especialmente aos professores, encostar as mochilas, dormir tarde e acordar ainda mais tarde. Enfim, viver como se não houvesse amanhã.

Todavia, todo ano, após alguns poucos dias de ócio, recebíamos, meus primos  e eu a notícia: “Amanhã começa a Colônia de férias.”

Tendo o privilégio de contar com mães modernas, independentes e trabalhadoras, meus primos e eu éramos anualmente “ocupados”, de forma voluntária ou não (na maioria das vezes)  com algum tipo de atividade diária, nos meses de janeiro e fevereiro. A opção mais simples, e diga-se de passagem, mais barata, era nos matricular na colônia de férias do prédio.

A maioria das crianças ficaria feliz com a solução, e, aliás, a maioria efetivamente ficava. Mas para uma criança tímida e sem pendor esportivo algum como eu, ir a colônia de férias era o equivalente a ser mandada anualmente a uma câmara de tortura.

Aquele verão não parecia ser diferente, quer dizer, a única diferença prevista era que, além de mim e de minha prima igualmente inapta para atividades atléticas, meu primo menor participaria da empreitada pela primeira vez. Bem mais novo que nós duas, seu desempenho era infinitamente melhor em todos os jogos, desde a corrida de saco ao salto em distância, o que apenas aumentava a nossa humilhação.

As coisas certamente não poderiam piorar, poderiam?

Claro que poderiam. Eis que, na aula inaugural, após apresentações e salamaleques, adentra o nosso Guantanamo particular, o terrível, o temido, o ameaçador… vizinho do 201. Com 10 anos, aquela criatura ignóbil tinha uma penugem debaixo do nariz que ele cofiava como se bigode fosse, e duas bem cultivadas espinhas, que lhe conferiam o almejado status de pré-adolescente. As meninas, entre elas, bem, mas muito bem secretamente eu, achavam o máximo. E o que o fazia ainda mais popular, desta vez entre os meninos, era o seu talento inato de inventar apelidos infames para todos os que ainda não tinham tido a graça de alcançar a sua pré-adolescência.

Enfim, foi o tempo do “tio” virar as costas para ele começar a exercer o seu maquiavélico talento: “Ih, ah lá a bolinha de fogo”, escutou a pobre ruivinha rechonchuda, “Sai daqui choquito”, levou o vizinho com eczema. Minha prima, aos prantos, foi agraciada com apenas um “bebê chorão”, que ela aceitou aliviada.

Eu me escondia, me escondia, quase ao ponto de entrar parede a dentro. Mas os meus esforços foram em vão, e logo os meus vastos e volumosos cachinhos me valeram um “Olha , não é que a medusa veio também?” , seguido de gargalhadas, inclusive do “tio”, envergonhado, que essa hora já estava por perto.

Para a minha desgraça, o apelido pareceu hilário, se espalhando rapidamente por todos os grupos da colônia. Era “medusa” na corrida de saco, na amarelinha, e mesmo na natação, onde, em contato com a água, meus cachinhos nem mais existiam!

Eu prendia o cabelo, trançava, molhava, esticava, mas a “Medusa” estava sempre lá, em meio a gargalhadas.

Depois de quase um mês de agonia, veio finalmente a oportunidade de redenção. Como encerramento da colônia, o “tio” propôs que criássemos uma pequena apresentação, onde cada criança representaria um estado brasileiro, se vestindo à caráter e declamando um texto e uma poesia da terra.

Vibrei. Enfim uma atividade em que poderia me destacar. Para compensar minha falta de habilidade atlética, que, aliás nunca me abandonou, ler e declamar poesias eram a minha “praia”. Coisa de filho de professor, entende?

Além do que, prendendo os tais cachinhos sob uma boina dourada, representando o ouro de Minas Gerais, estado que me coube, não haveria certamente espaço para a “medusa” se manifestar.

Caprichei na indumentária. Passei a noite forrando a saia godê preferida de papel dourado, touca de meia na cabeça, declamando minhas falas alucinadamente perante uma mãe incrédula face à minha dedicação à tão odiada colônia de férias.

Enfim chegou o grande dia. Enquanto os outros “estados” se revezavam na apresentação, corri ao camarim improvisado para me caracterizar como Minas Gerais.

Boina na cabeça, cachos domados e texto na ponta da língua, parti para a minha grande oportunidade de mostrar a todos que eu era mais que uma reles “medusa” que aos 9 anos ainda usava bóia para natação.

Comecei. Senti o texto decorado fluir pela minha garganta. Eu não atuava, naquele momento eu ERA Minas Gerais, se é que isso é possível.

E a platéia, formada de alunos, pais e “tios” me olhava de forma estupefata, o que na hora eu creditei à mais pura admiração.

Após a última frase, sorri, aguardando os tão esperados aplausos. Ao invés disso um silêncio, constrangedor, entremeado de risadas esparsas.

E ao fundo, escuto a voz do meu algoz que grita: “Ih, olha lá a calcinha da medusa!!!!!”

É leitor, na ânsia de “vestir”o personagem, não me vesti direito, deixando a braguilha da saia forrada de papel, completamente escancarada.

Ao menos o final feliz. Nas férias seguintes fui matriculada na escola de flautas.